Na Rua Nove de Julho, em Araraquara, a metalúrgica Scherer & Filhos suspendeu planos de comprar uma prensa usada de R$ 120 mil. O motivo não foi falta de demanda — a empresa fornece peças para implementos agrícolas e mantém carteira de pedidos estável. O obstáculo foi a recusa do banco regional em renovar a linha de crédito sem aval de imóvel adicional.
A história se repete, com variações, em dezenas de cidades do interior paulista. Em 2026, a combinação de juros altos e critérios de concessão mais rígidos cria um ambiente particularmente adverso para negócios que operam com margens apertadas e pouca colateralização.
O que mudou nos bancos
Gerentes de agências em Bauru, Presidente Prudente e São José do Rio Preto relatam aumento na exigência de histórico de faturamento digital — notas fiscais eletrônicas, extratos de maquininha, movimentação em conta PJ — para operações acima de R$ 50 mil. Empresas que ainda dependem em parte de vendas em dinheiro ou carnê enfrentam barreiras extras.
Cooperativas de crédito, tradicionalmente mais flexíveis com associados de longa data, também endureceram critérios após elevação da inadimplência em 2025. O presidente de uma cooperativa em Marília, que pediu anonimato, disse que o índice de atraso acima de 90 dias subiu de 2,8% para 4,1% no último ano, forçando revisão de limites.
Programas públicos como o Pronampe e linhas do BNDES continuam disponíveis, mas burocracia e prazos de análise desanimam parte dos interessados. Um lojista de eletrodomésticos em Ourinhos abandonou um pedido após 45 dias de espera por resposta.
Setores mais afetados
Comércio varejista de rua é um dos mais pressionados. Com aluguel indexado e vendas estáveis, mas não crescentes, muitos lojistas usam capital de giro para cobrir despesas fixas — prática arriscada quando o custo do dinheiro supera 20% ao ano.
Prestadores de serviço — oficinas, clínicas, escritórios contábeis — enfrentam dilema semelhante. A clínica veterinária PetVida, em Rio Claro, adiou contratação de segundo veterinário e compra de equipamento de ultrassom por falta de financiamento acessível.
Indústrias de pequeno e médio porte, especialmente as ligadas à cadeia do agronegócio, mostram mais resiliência. Muitas mantêm reservas construídas nos anos de boa safra e negociam prazos diretamente com fornecedores. Mesmo assim, investimentos em automação e eficiência energética foram postergados em pelo menos cinco empresas ouvidas pelo Território.
Estratégias de adaptação
Diante do cenário, gestores adotam medidas conservadoras: redução de estoque, negociação de prazos com fornecedores, antecipação seletiva de recebíveis (mesmo com desconto) e adiamento de contratações. Alguns buscam sócios ou investidores locais, mas o mercado de equity para PMEs do interior continua incipiente.
Consultores financeiros recomendam organização documental, separação clara entre finanças pessoais e empresariais e avaliação de linhas de crédito em fintechs especializadas em PME — embora taxas nem sempre sejam menores, prazos de resposta costumam ser mais curtos.
O que esperar nos próximos meses
Economistas ouvidos pelo Território não projetam queda significativa da Selic antes do final de 2026. Para o empresário do interior, isso significa que o ambiente de crédito restritivo deve persistir. A recuperação, quando vier, tenderá a beneficiar primeiro empresas com balanço organizado e histórico de pagamento comprovado.
Enquanto isso, a lição que emerge das entrevistas é de cautela: expansão baseada em dívida cara perdeu atratividade, e sobrevivência passou a ser sinônimo de eficiência operacional e relacionamento bancário transparente.