Na Fazenda Santa Helena, em Rio Verde (GO), 400 hectares de pastagem degradada ganharam 22 mil painéis fotovoltaicos entre março e maio deste ano. O investimento de R$ 18 milhões, financiado em parte por linha de crédito rural, deve suprir 70% do consumo de energia da propriedade — irrigação, silos, beneficiamento de grãos — e gerar excedente para venda à cooperativa local.
O projeto é emblemático de uma onda que atravessa o Cerrado em 2026. Com irradiação solar entre as mais altas do país e áreas de reserva legal que não podem ser desmatadas mas podem receber infraestrutura, a região tornou-se polo de geração distribuída e usinas de médio porte.
Novas regras, novas dúvidas
A Resolução Normativa ANEEL nº 1.059/2023 estabeleceu transição gradual para o sistema de compensação de energia, com redução dos benefícios tarifários ao longo dos anos. Produtores que entraram antes de 2023 mantêm condições mais favoráveis; quem investe agora precisa calcular retorno com cenários menos generosos.
Em Minas Gerais, a Cemig e em Goiás, a Equatorial, publicaram tabelas atualizadas de tarifas de acesso e encargos de conexão. Para propriedades afastadas da rede, o custo de linha de transmissão pode inviabilizar projetos menores — um obstáculo frequente em áreas de expansão agrícola recente.
Consultores especializados em energia solar rural relatam aumento de 40% nas consultas no primeiro semestre de 2026. Muitas terminam em recomendação de esperar: sem clareza regulatória, o payback projetado varia demais para justificar compromisso de longo prazo.
Biomassa como alternativa
Nem todo produtor tem perfil para solar. Na região de Uberlândia, usinas de biomassa que queimam resíduos de cana e casca de algodão ganham espaço em propriedades com cadeia integrada. A vantagem é geração estável, independente de horário; a desvantagem, investimento inicial alto e necessidade de escala.
A Cooperativa dos Produtores do Triângulo Mineiro instalou uma caldeira de 5 MW que atende 12 associados. O excedente é vendido para a rede em horários de pico, quando a tarifa é mais atrativa. O modelo exige governança coletiva e contratos bem desenhados — lições aprendidas após dois anos de operação.
Impacto na conta de luz
Para quem já investiu, os resultados aparecem na conta. O produtor de soja Edson Morais, em Jataí (GO), reduziu gasto mensal com energia de R$ 28 mil para R$ 9 mil após instalar 800 kWp em telhados de galpões. O prazo de retorno estimado caiu de nove para sete anos com a alta das tarifas de distribuição em 2025.
Contudo, manutenção e seguro dos equipamentos representam custo recorrente frequentemente subestimado. Painéis precisam de limpeza periódica — poeira do cerrado reduz eficiência — e inversores têm vida útil limitada. Reservas para reposição devem entrar no planejamento financeiro.
O que vem pela frente
O Ministério de Minas e Energia sinaliza revisão de marcos para geração distribuída em áreas rurais, com possível criação de faixas específicas para propriedades acima de determinado tamanho. Produtores e associações acompanham de perto, enviando contribuições em audiências públicas.
Enquanto as regras não se consolidam, a recomendação que emerge de entrevistas com técnicos, produtores e representantes do setor elétrico é pragmática: avaliar consumo real, buscar projetos dimensionados sem superdimensionamento e negociar contratos de manutenção antes da instalação. A transição energética no Cerrado é real — mas exige planejamento tão cuidadoso quanto o de qualquer safra.